Um resultado alto que precisa de denominador e contexto
Uma pesquisa divulgada pela Veja em 5 de outubro ouviu 850 pessoas com depressão em sete países, todas em uso de antidepressivo oral. Entre os cem participantes brasileiros, 95% disseram que sintomas ainda produziam impacto negativo moderado ou significativo na vida diária. Foi a maior proporção entre os países incluídos: os percentuais apresentados pela reportagem variaram de 62% na China a 77% na Itália. O achado chama atenção para a diferença entre melhorar e recuperar plenamente o funcionamento, mas não descreve a prevalência de depressão residual no Brasil.
A distinção é essencial. O grupo brasileiro reuniu cem respondentes selecionados para uma pesquisa online sobre pessoas que já tinham diagnóstico e tratamento. Ele não é uma amostra aleatória da população nem de todos os usuários de antidepressivos. Portanto, não se pode concluir que 95% dos brasileiros tratados permanecem sintomáticos, que o cuidado nacional seja pior ou que um país cause mais depressão que outro. O número informa como aquele grupo respondeu ao questionário e deve orientar perguntas, não produzir um diagnóstico coletivo.
Fonte: Veja.
Patrocínio e desenho limitam as conclusões
O levantamento foi realizado pela Johnson & Johnson como parte de uma campanha global sobre sintomas residuais. A coleta ocorreu em plataforma online entre 6 e 27 de agosto de 2025, e os resultados foram revisados pela organização Mental Health America. A reportagem também ouviu um representante da empresa. Esses vínculos não invalidam automaticamente os dados, mas precisam acompanhar a interpretação porque o patrocinador atua no mercado de tratamentos para depressão e definiu o objetivo comunicacional da pesquisa.
Não foram apresentados, no conteúdo acessível, método de recrutamento detalhado, taxa de resposta, critérios diagnósticos independentes, instrumento completo ou ajuste estatístico que permita comparar países como se fossem populações equivalentes. Respostas autorrelatadas também estão sujeitas a memória, interpretação das perguntas e seleção de quem aceita participar. Além disso, a coleta aconteceu um ano antes da divulgação. O estudo é útil como retrato exploratório de experiências persistentes, não como ensaio clínico, censo ou prova de eficácia insuficiente de um medicamento específico.
Fonte: Veja.
Resposta clínica e recuperação funcional não são sinônimos
A intensidade dos sintomas pode diminuir sem que sono, energia, concentração, prazer, relações e desempenho retornem ao nível anterior. Por isso, avaliar somente tristeza ou uma pontuação total pode esconder dificuldades que continuam relevantes. O NIMH descreve como objetivos do tratamento não apenas aliviar sintomas, mas manter ou melhorar o funcionamento diário e a qualidade de vida. A mesma pessoa pode relatar menos desesperança e, ao mesmo tempo, continuar incapaz de retomar atividades, vínculos ou responsabilidades.
No recorte brasileiro da pesquisa, 70% citaram impacto sobre amizades e vida social, 53% sobre hobbies e 38% sobre a formação de novos relacionamentos. Além disso, 94% disseram que os sintomas afetavam, ao menos ocasionalmente, como se sentiam ou agiam no trabalho. Esses percentuais pertencem apenas aos respondentes, mas ilustram por que a consulta precisa explorar rotina e participação social. Uma melhora parcial pode ser clinicamente valiosa e ainda deixar necessidades que merecem acompanhamento.
Fonte: NIMH / NIH.
Sintomas persistentes também exigem revisão diagnóstica
Baixa energia, dificuldade de concentração, alterações de sono, perda de interesse e retraimento podem integrar a depressão, mas não são exclusivos dela. O NIMH lembra que condições clínicas e medicamentos podem produzir manifestações semelhantes e que a avaliação pode incluir entrevista, exame físico e testes conforme o caso. Problemas de tireoide, dor crônica, anemia, distúrbios do sono, uso de substâncias e outras doenças precisam ser considerados, especialmente quando a evolução não corresponde ao esperado.
Também é necessário verificar adesão, dose, tempo de uso, efeitos adversos, diagnóstico original e presença de ansiedade, transtorno bipolar ou outros quadros. Isso não significa responsabilizar a pessoa nem pressupor uso incorreto. Tratamentos podem falhar mesmo quando seguidos adequadamente. A revisão estruturada evita dois extremos: aceitar sofrimento contínuo como inevitável ou trocar medicamentos repetidamente sem esclarecer o que permanece, quando começou e qual domínio da vida foi mais afetado.
Fonte: NIMH / NIH.
Conversas vagas dificultam decisões compartilhadas
Entre os brasileiros ouvidos, 93% disseram já ter falado com um profissional sobre os sintomas persistentes, mas 72% não estavam totalmente satisfeitos com a resposta. Do outro lado, 92% dos 800 profissionais entrevistados nos sete países afirmaram que pacientes têm dificuldade, ao menos às vezes, para explicar o que não funciona no tratamento. Os dados não permitem determinar quem falhou na comunicação, mas sugerem que perguntas concretas podem produzir informação melhor do que um simples “está melhor?”.
Registrar sono, energia, crises, atividades abandonadas, faltas ao trabalho, efeitos colaterais e mudanças após ajustes pode ajudar. Metas também precisam ser específicas: voltar a caminhar, conseguir estudar por determinado período ou retomar contato com amigos são exemplos observáveis. Escalas padronizadas podem apoiar o acompanhamento, desde que não substituam a conversa. O plano deve incluir quando reavaliar, o que conta como melhora suficiente e qual será o próximo passo se os objetivos não forem alcançados.
Fonte: Veja.
Persistência não autoriza mudar remédio por conta própria
Antidepressivos costumam levar semanas para produzir efeito completo, e diferentes sintomas podem melhorar em ritmos distintos. O NIMH informa que a escolha do tratamento depende das necessidades, preferências e condições clínicas da pessoa e pode envolver psicoterapia, medicamento ou ambos. Interromper abruptamente, aumentar a dose ou combinar substâncias sem orientação pode causar sintomas de retirada, interações, piora clínica ou confundir a avaliação do que estava funcionando.
A expressão depressão resistente ao tratamento costuma ser usada quando não há melhora adequada após pelo menos duas tentativas antidepressivas apropriadas, mas essa classificação exige confirmar diagnóstico, dose, duração e adesão. A própria reportagem reconhece que o levantamento não avaliou quantos participantes preenchiam esse critério. Logo, o percentual de sintomas persistentes não pode ser convertido em percentual de resistência. Uma resposta parcial pede reavaliação individual, e não a conclusão automática de que tratamentos convencionais falharam.
Fonte: NIMH / NIH.
Psicoterapia e funcionamento merecem espaço na revisão
Psicoterapia pode ser usada isoladamente ou junto de medicamentos e trabalha emoções, pensamentos, comportamentos, habilidades sociais e formas de enfrentar estresse. Entre as abordagens com evidências para depressão, o NIMH cita terapia cognitivo-comportamental e terapia interpessoal. A escolha deve respeitar o diagnóstico, o acesso, a experiência do profissional e os objetivos da pessoa; não existe um formato único indicado por uma pesquisa de opinião.
Quando o tratamento atual alivia parte do quadro, uma revisão pode perguntar se há oportunidade de incluir ou ajustar psicoterapia, tratar insônia, reduzir barreiras sociais e fortalecer suporte. Isso não transforma exercício, rotina ou relacionamentos em substitutos de cuidado clínico. Significa reconhecer que recuperação funcional depende de mais que uma contagem de sintomas. Intervenções devem ser discutidas com a equipe, acompanhadas ao longo do tempo e modificadas conforme benefícios, dificuldades e preferências reais.
Fonte: NIMH / NIH.
O dado mais útil é o que abre uma consulta melhor
A pesquisa não prova que o Brasil tenha a maior carga de sintomas residuais nem permite escolher um novo tratamento. Seu valor está em lembrar que “menos sintomas” pode ser diferente de “vida recuperada”. Pessoas em acompanhamento podem levar à consulta exemplos concretos do que ainda está difícil, além de efeitos adversos e expectativas. Profissionais podem perguntar sobre prazer, energia, cognição, relações, trabalho, autocuidado e segurança, em vez de limitar a avaliação ao humor.
Piora importante, incapacidade de se cuidar ou pensamentos de morte exigem ajuda imediata. No Brasil, o CVV atende pelo 188; situações de emergência pedem serviço de urgência ou SAMU 192. Para quadros sem risco imediato, a orientação é não abandonar o plano sozinho e marcar reavaliação. Um levantamento patrocinado e pequeno não deve gerar alarme, mas reforça uma prática válida: tratamento precisa ser medido pelo alívio do sofrimento e pela possibilidade de voltar a viver.
Fonte: NIMH / NIH.


